3 de novembro de 2015

O Trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra


Texto base: Salmo 33.6; 104.30

INTRODUÇÃO

Ao dissecar sobre a obra da trindade na criação de todas as coisas, o bom estudante das Escrituras se depara com assuntos que, por um lado, são incríveis e, por outro, são pouco conhecidos por grande parte da igreja evangélica brasileira. Dentre estes assuntos pouco abordados, temos o papel que o Espírito Santo exerceu no passado, continua exercendo no presente, e ainda exercerá no futuro [na terra restaurada] na criação.

Sendo assim, para que possamos compreender adequadamente como foi o trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, conforme o relato de Gênesis 1 e 2, e de várias outras passagens da Escritura, é imprescindível traçarmos uma distinção importante.

Deus Pai é o criador – aquele que trouxe a existência os céus e a terra pela sua infinita sabedoria e poder. Deus Filho é o coordenador – aquele que organizou todo o processo da criação; que pôs em ordem todas as coisas. E, finalmente, Deus Espírito Santo é o aperfeiçoador – aquele que concluiu e preserva toda a criação em ordem.

Tendo observado o papel de cada pessoa da divindade no processo de criação, é importante ressaltar mais detalhes específicos sobre o papel do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, o que veremos a seguir.

 EXPLANAÇÃO

1. A uniformidade do papel da divindade na criação

O trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação dos céus e da terra não foi algo realizado em estágios sucessivos, onde Deus Pai planejou, Deus Filho executou e o Espírito Santo completou. A obra da criação não foi uma divisão de tarefas, pois, se fosse assim, não seria um trabalho apenas, mas três trabalhos distintos realizados por três pessoas separadamente.

Não! Antes, o trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação foi uma distribuição de tarefas de um mesmo trabalho executado por ambos. 
Por exemplo, na construção de uma casa ou apartamento, não temos duas ou mais obras a serem realizadas, mas apenas uma obra com distribuições de tarefas. Deixe-me elucidar ainda mais este exemplo. No processo de uma construção, o primeiro passo é o planejamento, ou seja, arquitetar a construção.

Após o projeto de uma casa ou apartamento já estar feito, o segundo passo é a contratação dos pedreiros para começar a construção. E o terceiro passo é a decoração da casa ou apartamento, que geralmente é feita também pelos pedreiros, porém existem algumas exceções, onde decoradores específicos são designados para tarefas específicas.

Na criação de todas as coisas, podemos notar semelhanças com o exemplo supracitado. Deus Pai foi o “arquiteto” da criação – aquele que planejou todos os detalhes. Deus Filho foi o “executor” da criação – aquele que esteve presente trabalhando em todo o processo. E Deus Espírito Santo foi o “decorador” da criação – poeticamente falando, aquele que “embelezou” os céus e a terra e tudo que nela há com a sua glória. Portanto, a criação dos céus e da terra foi um trabalho da divindade, porém com diferentes tarefas para Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

2. A peculiaridade do papel do Espírito Santo na criação

Conforme vimos, o Espírito Santo teve a sua participação na criação, e suas atividades estavam intimamente relacionadas com as atividades de Deus Pai e Deus Filho em todo o processo. Contudo, sua atividade principal começou somente depois da criação da matéria pela palavra de Deus, onde Ele deu origem à vida.

Gênesis 1.2 demonstra primeiro a criação de toda a matéria, a animação e, por fim, a preservação da mesma, a qual é obra do Espírito Santo. Desse modo, senão vejamos alguns aspectos do trabalho específico da terceira pessoa da trindade na criação dos céus e da terra.

a) Pairava sobre a desordem

Antes da criação da terra estar completa e em ordem para ser habitável, o Espírito Santo já estava presente desde o início em todo o processo. Em Gênesis 1.2, é dito que o Espírito de Deus ou o Espírito Santo pairava sobre a face das “águas”, ou, literalmente, do abismo.

“O texto hebraico mostra que o trabalho do Espírito Santo se movendo sobre a face das águas era semelhante àquele de uma ave que, com as asas estendidas, paira sobre seus filhotes para cobri-los e afagá-lo. A figura implica que não apenas a terra existia, mas também os germes de vida estavam nela e que, o Espírito Santo, impregnando esses germes, fez com que a vida existisse, a fim de conduzi-la ao seu destino”.1   
  
b) Criou e dispôs os céus e a terra

No Salmo 33.6, vemos descrito que o Espírito Santo criou os céus e o exército deles. A primeira expressão do versículo diz: Os céus por sua palavra se fizeram; e a segunda afirma: ... e, pelo sopro [Espírito] de sua boca, o exército deles [sol, lua e estrelas].

Na poesia hebraica, expressões paralelas denotam o mesmo sentido, porém de maneiras diferentes. Desse modo, nessa passagem, os termos palavra e Espírito (sopro), possuem o mesmo significado. O termo Espírito, no entanto, enfatiza apenas a peculiaridade do trabalho do Espírito Santo na criação.

Refere-se não à criação da matéria da qual o sol, a lua e as estrelas foram compostos, mas da glória que eles refletem. Esta glória é obra do Espírito Santo. Assim, o Salmo 33.6 aborda a criação, a natureza dos céus e, por conseguinte, o seu desenvolvimento, o qual é realizado pelo Espírito Santo.

c) Proporcionou vida à criação animal

Gênesis 1.24-25 relata a criação dos animais e suas diferentes espécies. Foi obra do Espírito Santo outorgar vida aos animais. Foi Ele quem produziu vida aos animais domésticos, como cães e gatos, aos répteis, aos animais selváticos, dentre outros.

d) Chamou o homem à existência 

Sabemos que as três pessoas da divindade estavam presentes em todo o processo da criação dos céus e da terra. Entretanto, produzir vida ao homem foi tarefa essencial do Espírito Santo. Gênesis 2.7 salienta que, após criar o homem Adão do pó da terra, Deus soprou em suas narinas o fôlego de vida. Esta vida, portanto, é a vida biológica que o Espírito Santo insuflou em Adão.

Não obstante, Jó 33.4 e o Salmo 104.30 destacam mais claramente o trabalho do Espírito Santo na criação. Jó afirma que o Espírito Santo teve um papel específico na formação do homem. O Salmo 104.30, por sua vez, declara que Ele realizou um trabalho similar na criação dos animais em geral.

A expressão envias o teu Espírito, eles são criados, não faz alusão aos homens, mas a diversidade dos animais que foram criados, os quais são mencionados nos versículos 25-29. Logo, o salmista está se referindo aos animais e sua preservação, e não à criação e preservação dos homens.

O Salmo 104.30 acentua que, embora a matéria e o modelo do qual os animais foram criados já estivessem em pauta no conselho trinitariano, ainda assim era indispensável o trabalho do Espírito Santo para ocasionar a existência deles. Todavia, para melhor compreensão do assunto em voga, é importante demarcar a seguinte observação:

Jó, no capítulo 33.4, não sinaliza a criação do primeiro homem, Adão, mas simplesmente a criação de um homem. De modo semelhante, no Salmo 104.30, o salmista também não enfatiza a primeira criação dos animais; antes, ele se referiu aos animais que nadavam no mar no momento em que compunha o Salmo. É bem provável que o salmista estivesse à beira do mar nessa ocasião, em uma introspecção.

 CONCLUSÃO
  
Diante de tudo, entendemos que o Espírito Santo teve um papel singular na obra da criação. Sendo assim, três considerações finais precisam ser elencadas acerca do caráter da obra do Espírito Santo na criação dos céus e da terra. Vejamos, pois:

1) O ato do Espírito pairar sobre a terra vazia, descrito em Gênesis 1.2, assinala que o seu trabalho era trazer à existência a vida escondida na terra ainda inabitável e inacabada, ou seja, transmitir vida à toda matéria que seria criada, como o homem, os animais, as plantas, os luminares, e outros.

2) Além de trazer à existência a vida secreta, o caráter do trabalho do Espírito Santo na criação consiste em fazer com que a beleza da glória divina escondida se revele em toda a criação, ativando, assim, a capacidade dela se reproduzir. Podemos utilizar como exemplo de reprodução da beleza divina as plantas, os animais, os luminares, as estações do ano, etc.

3) Não existe uma tricotomia na obra da criação. Não podemos fazer uma separação de trabalho. Juntamente com Deus Pai e Deus filho, o Espírito Santo também planejou, geriu e coordenou toda a obra da criação.


  
NOTA:

1. Abraham Kuyper. A obra do Espírito Santo, pág 66-67. 


Autor: Leonardo Dâmaso 
Divulgação: Reformados 21